As dores da adoção: um bate-papo com Luiz Schettini Filho

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Toda adoção envolve muitos sonhos, expectativas e alegrias. E, como qualquer grande transformação, também vem acompanhada de muitos desafios. Mãe biológica, família adotiva e claro, a criança, passam por questionamentos e situações que exigem perseverança, amor, compreensão e diálogo. E, em especial, precisam superar uma fase muito especial, que os especialistas chamam de “as dores da adoção”.

adoção pode ser extremamente enriquecedora, repleta de aprendizados para todos que participam do processo em qualquer fase, mas não exclui os momentos de dor. Para falar do tema, o Instituto Geração Amanhã entrevistou Luiz Schettini Filho, psicólogo, filósofo, professor e autor de mais de 25 livros sobre adoção (entre eles “As Dores da Adoção”) e um dos mais respeitados estudiosos sobre o tema. Aqui, ele explica com clareza sobre como lidar com a realidade romantizada da adoção versus a realidade da convivência, que como toda relação parental traz dores e desafios.

“Essa ideia tem a ver com o fato de tentarmos mostrar que a adoção, mesmo sendo positiva e romantizada pelas pessoas, tem também suas dores. E quando me refiro às dores da adoção, estou englobando uma série de situações que são naturais na convivência humana, sobretudo na relação parental”, explica Schettini.

Confira o bate-papo:

IGA: Quais são as dores da adoção?

Schettini: Quando falamos das dores da adoção, temos que fazer uma divisão. Existem dores em três estágios, cada um com sua complexidade. 

As dores da adoção:

Da mãe que disponibiliza para adoção a criança que ela gerou,

Da criança que deixa sua origem para se ligar a uma família e construir uma nova relação parental,

Dos pais que adotam.

IGA: como fica a questão da história da criança ou do adolescente?

Schettini: A adoção está permeada dos fatos relativos à origem. Não existem pessoas sem histórias. Não há pessoa real sem uma história, e uma história pressupõe um começo e, imagina-se, um fim. Não é possível saber como será o fim, mas temos a necessidade de ter, por mais vago que seja, uma informação da nossa origem. E para um filho adotado isso conta muito. O desconhecimento da origem é presente na maior parte dos casos de adoção, com crianças e adolescentes que sabem pouco ou nada sobre sua origem.

Quando não se conhece a origem, existem idealizações.

IGA: O que significa o desconhecimento, para a criança, de sua história?

Schettini: Quando a criança ou adolescente adotado não tem nenhuma informação mais concreta sobre sua origem, ela tende a ter alguns aspectos de seu desenvolvimento alterados, tornando-se, por exemplo, sexualmente precoce. Uma precocidade que me chamou a atenção nos últimos 25 anos em que tenho estudado a adoção. Comecei a perguntar o porquê e ficou claro que essas crianças têm apenas uma certeza concreta sobre sua origem: a de que foram fruto de uma relação sexual. Essa informação concreta pode vir a acelerar essa dinâmica, que teria um ritmo diferente na média das outras crianças.

IGA: Quais são as dores da criança?

Schettini: Essa criança tem sofrimento ao ser desligada de sua origem. Porém há quem questione: “e se ela foi para adoção, por exemplo, logo ao nascer?” A resposta é “sim, também haverá dores, pois existiu uma vida intrauterina.” Hoje sabemos que as dificuldades de muitas crianças e, consequentemente de muitos adultos, têm explicação nos traumas chamados de perinatais. Que acontecem não só na fase da vida intrauterina, mas relacionados às circunstâncias do nascimento e ao encontro com a realidade fora do útero materno. O psiquiatra checo Stanislav Grof fez uma série de pesquisas e experiências há quase trinta anos e ainda hoje persiste nisso, já em outro nível, com comprovações interessantes sobre o tema, especialmente no livro “A Psicologia do Futuro”.

IGA: Como a psicologia vê a história da criança adotada?

Schettini: Mesmo uma criança que é encaminhada para adoção logo após seu nascimento já vem com história, com coisas inscritas que ela evidentemente não tem consciência. Aí nos reportamos a Freud, à questão do inconsciente, em que as “imagens” são registradas e depois se manifestam de forma objetiva, sem que tenhamos conhecimento de como apareceram. Mas elas vieram de uma inscrição que foi feita em alguma época, pois não ocorre só com a criança muito jovem. A criança adotada vem com uma história, e isso não deve ser considerado somente de forma quantitativa, ou seja, os anos em que ela viveu com os pais genitores. O tempo aí não conta tanto, mas sim a qualidade e o significado dos acontecimentos. Porém, é óbvio que uma criança adotada aos 7, 8, 9, 10 anos ou mais já vem com mais história construída.

IGA: Explique por favor a expressão que diz que somos “codeterminados”.

Schettini: O neurobiólogo chileno Humberto Maturana tem uma expressão muito interessante que diz que “nós não somos predeterminados, mas sim codeterminados”. Ou seja, temos uma história genética que conduz nossa forma de ser em alguma medida, mas isso inclui o que ocorre no ambiente à nossa volta, seja o intrauterino ou após o nascimento.

O ambiente – de forma bem abrangente, e sobretudo as pessoas –  insere-se na formação da criança e do adolescente e vice-versa. Assim se constrói a pessoa, com suas singularidades, em parte determinada pela genética e em parte absorvidas do ambiente.

Nós absorvemos muito das pessoas com quem convivemos. Sabemos que todas as crianças, sem exceção, nascem com a capacidade de falar qualquer idioma, mas falarão primeiro o idioma das pessoas com quem convivem. Esse processo também é verdadeiro em relação ao comportamento humano. Primeiro, as crianças vão absorver determinados comportamentos e formas de ser das pessoas com quem convivem diariamente no ambiente familiar.

IGA: A sensação de abandono é uma das dores da adoção?

Schettini: Sim, toda adoção carrega em si uma forma de abandono. Os sofrimentos são muitos, de várias naturezas. Desde a mãe que deixa seu filho por decisão própria – e não importa chamarmos isso de abandono, pois toda adoção carrega em si uma forma de abandono. Até mesmo quando a gestante morre durante o parto, isso é visto pela criança como abandono, uma vez que ela não tem consciência do que ocorreu e foi apartada de sua mãe biológica. Posteriormente ela pode compreender a história e racionalizar, mas não num primeiro momento. 

IGA: Quais são as rupturas presente na adoção? E quais são as dores que elas acarretam?

Schettini: No processo adotivo existe uma dinâmica muito peculiar que podemos resumir como uma relação “entre o parto e a partida”.

O parto é como se fosse o momento em que acontece a adoção. A partida é o processo. 

O sofrimento que existe é voltar à origem, de ter uma relação com essa história, fantasiada ou não, mas necessária, uma vez que a criança precisa de um ponto para se apoiar. Por isso o filho adotado é peculiar – ele não é como as crianças que não viveram essa ruptura. A vida do filho adotivo passa necessariamente por um processo de ruptura que esperamos que se consolide numa sutura.

As duas experiências são dolorosas, tanto a ruptura que é a partida, quanto a sutura que é a ligação com a nova família. Isso lembra a posição do biólogo suíço Adolf Portmann, que diz que “nós chegamos a esse ambiente através do útero biológico, mas continuamos nosso desenvolvimento no útero social”. E isso é interminável, o útero social não termina nunca. 

IGA: Seguindo essa perspectiva de Portmann, qual o papel da convivência? 

Schettini: Desde pequenos aprendemos na escola que tanto o planeta quanto o corpo humano são constituídos por proporções parecidas, de 70% de matéria líquida e 30% de matéria sólida. Creio que não aprendemos essa relação sem um propósito. Então, não é estranho falar sobre útero biológico e útero social dentro dessa contingência.

O famoso filósofo Immanuel Kant disse que “vivemos em um planeta esférico, o que significa que mais dia, menos dia, iremos nos encontrar”. Acho isso muito interessante, pois a grande mola que move as pessoas é a mola da convivência, que nós jamais conseguimos dispensar, ainda que a convivência muitas vezes passe a ser uma dor. Não podemos dispensar essa dor por conta da convivência que é inerente ao ser humano. Acredito, portanto, que na questão da filiação adotiva está embutida a grande busca de uma convivência satisfatória que promova segurança.

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