porSávio Bittencourt

O que você vai ser quando crescer?

Quanto estamos para ter um filho é comum que façamos projeções sobre este ser futuro. É a idealização da criança. Projetamos muitos pendores no rebento não raramente de forma exagerada, de um filho perfeito, dentro da nossa limitada e vulnerável versão de perfeição…

Humano que sou, com as limitações inerentes a esta qualidade essencial, fiz algumas quando você estava para nascer. Não cheguei às raias da loucura, mas fiz meus prognósticos. Queria um filhotinho alegre e risonho. Com a cara meio safada de quem gosta de arte. Um neném brincalhão e bem humorado. Imaginei um menino bonito, de jogar bola e fazer turminha. Previ um filho carinhoso, que gostasse de se aconchegar em meio peito, só para ficar ali vivendo a vida que se vive juntinho. Pensei como seria bom, sim seria muito bom, ter um filho que tivesse o mesmo time que eu e que compartilhássemos as vitórias a as derrotas, como metáfora da vida. Às vezes se ganha, às vezes não, mas não se deixa de jogar com alegria. Programei que você fosse um jovem bem sucedido, que estudasse, jogasse, se relacionasse, amasse, tudo, tudo, tudo muito bem.

Confesso que fui assim desabusadamente projetando você. Como se eu fosse o próprio Criador, que pretensão! Mal sabia eu, filhinho, que Ele, em sua infinita paciência, não tomaria a minha tola aspiração não como um pecado, mas como uma prece. E assim foi. Pela mercê de Deus, você foi se tornando tudo isso e muito mais. Não só foi o bebê fofo, o safado que roubava a chupeta da sua irmã, o pequeno que se aninhava em meu colo após das várias risadinhas gostosas e escondia seu rostinho no meu peito, menino de bola e de pique, menino vasquinho da gama de berço e de glória, chova ou faça sol, adolescente falante sobre os problemas do Brasil e do mundo, vivo e interado da vida em si, desportista estudantil bem sucedido, reconhecidamente inteligente e bem desempenhado nas letras acadêmicas. Ah, os sonhos limitados e abobados dos pais! Você foi muito mais que isso!

O que eu pedi, ao projetar todas as coisas imaginativas que pude, foi muito menos do que Deus me deu. Com efeito, além destas coisinhas mundanas de ser bonito, de ter sucesso, de conseguir isso ou aquilo, você me saiu melhor que a encomenda. Se tornou por si próprio uma pessoa ética. Integralmente ética. No discurso e na prática. Ama o que é certo e rejeita aos safanões, às vezes um tanto exagerados, aquilo que é errado. Tem uma indignação genuína com o que considerada desonesto, se irrita com a burrice, com o egoísmo, com a passividade.

Perceber esta sua indignação com o lugar-comum, com as mentiras deslavadas que de tantas vezes contadas começam ser aceitas como verdade, me emociona. Você não se fez refém nem da demagogia, nem da indiferença. Pois se os pais soubessem o que há para além das medalhas, dos diplomas e outras consolidações do orgulho, poderiam pedir melhor. Se eu pudesse voltar atrás e pedir de novo o que projetei quando te esperava, meu amado, pediria que você fosse assim, como é, um caráter melhor que o meu, dono de uma força interna brutal e contagiante, capaz de botar abaixo aquilo que não deve mesmo ficar de pé. Não o fiz porque, naquelas alturas da minha juventude, ainda não havia entendido que Deus faz pela gente mais do que ela efetivamente merece. Mas agora percebo isso, por você. Feliz aniversário. A lei diz que você agora pode fazer tudo sem mim. Mas estarei aqui sempre, para o que der e vier. Te amo.

porSávio Bittencourt

Quando nós adormecemos juntos

Milan Kundera disse em seu “A Insustentável Leveza do ser” que o sono compartilhado é o corpo de delito do amor. E ele tinha razão, sabe? Pouso minha mãozinha sobre o seu rosto macio e sinto o calor radiante que dele emana, rosto de mãe que me ama, que me cuida, que vive por mim. Vou adormecendo devagarzinho pensando nas minhas aventuras imaginárias colossais, meus castelos, meus príncipes, meus medos e minhas delícias. Bochecha de mãe é sempre macia, bochecha de beijar com beijo estalado ou com beijinhos repetidos em sequência sem fim, beijinhos pequenininhos mil, dados todos num minuto só. Nós aqui deitadas na cama gostosa, uma de frente para outra, partilhando o quentinho desta manta, enquanto os sonhos se apoderam da nossa consciência.

Sinto seu perfume, mãe. Ele está no seu pijama e no travesseiro que eu te roubo noite adentro para abraçar de supetão. Só você tem esse cheiro. É um cheiro bom, de coisa nossa, que me lembra quem eu sou. De onde vim, não sei bem, mas sei aonde cheguei para ficar: ao seu lado, na partilha preguiçosa desta madrugada, em que minha mão toca seu rosto para verificar que você está aí e que me protege. É a certeza de que há adultos em que se possa confiar, mãe. Há adultos que se pode amar sem contraindicação.

Mãe, você já viu como fica bonito quando em coloco a mão no seu rosto? Minha mão mulata, com um toque qualquer de África, sobre seu rosto branquinho, de cachopa de além-mar, formando um contraste bem brasileiro: é um verdadeiro dégradé de amor. De todas as raças existentes, somos nós da raça humana, a raça que abraça, que acaricia, que beija, que ama. Somos, mamãe, a raça da raça humana.

Sei bem que você está cansada! Trabalhou pra burro, lutou pelos seus ideais (que devem ser sublimes, mãe!), deu conta de tudo. Chegou esbaforida e tomou um banho morninho. Agora já dorme, depressa, sem cerimônia! Eu ainda demoro um pouquinho, sabe? Fico te olhando dormir, bem de pertinho, sentindo a pele de papiro do seu rosto, no aconchego desta coberta. Fecho meus olhinhos na certeza do seu zelo, criança segura si, criança segura de ti.

Ainda bem que eu te encontrei, mãe! Acho que sua vida ia ser uma chatura se eu não tivesse aparecido. Não sei bem como foi, porque o que é perfeito sempre vem por atalhos. Mas sei que eu te dou motivo para dormir a acordar. Eu também fiquei feliz: seu colo foi feito para mim, seus olhos sorriem para mim, sua boca pronuncia com frequência que me ama. Isso é muito bom, mãe! Mas eu prefiro quando você me beija e quando traz chocolate.

Agora já estou com muito sono. Tem um garoto na escola que eu acho bonito, mas não sei se te conto. Depois eu vejo isso. Aqui nessa caminha macia do seu quarto me sinto muito segura, nada me incomoda. Você, mãe, pertence a mim: uns anjinhos providenciaram esse nosso encontro, cada um com uma tarefinha. Hoje eles estão aqui em volta, acampados em cabaninhas de lençol, para cantar as canções mais bonitas, daquelas que nos fazem sorrir. Vou dormir agora, mamãe, pois há muitos sonhos a viver, tá? Te amo.

Sávio Bittencourt

porSávio Bittencourt

Caro filho negro…

Agradeço a Deus por ter te encontrado. Andei por aí, baldo de amor, cambaleando em caminhos áridos, pelos labirintos da minha ignorância. Antes de você, minha vida monocromática se desenrolava num enfado sem fim. Vida de papel vazio, branco, sem pincelada qualquer, indigno de rascunho. Coração de pedra, sôfrego de afago e de afagar.

Olho agora para nossas mãos dadas: mão de pai, mãozinha de filho, uma branca e uma preta, entrelaçadas, fundidas em aperto de carinho, e você me pergunta candidamente, “pai, você viu a diferença entre as nossas mãos?”, eu digo bisonhamente “vi não, filhote! Qual é?”. Sua respostinha acachapante me enche os olhos de água benta: “a sua é grande, a minha é pequena”.

Ah, Lágrima santa que me desce o rosto, testemunha de um mundo generoso no qual se pode amar o desigual, àquele que não deriva do animal que involuntariamente habito: filho por escolha afetiva, filho por procura, filho por encontro, filho-filho mesmo. Dos amores fortuitos da rua, sabemos que só existem estes, os amores fortuitos da rua, que nunca obedecem a uma lógica racional predeterminada. Amores programados, planejados, milimetricamente articulados, esses, coitados, não há.

Se existisse uma máquina para criar pessoas perfeitas teríamos a suprema tentação de colocarmos ali, num só ser, todas àquelas virtudes dos heróis, para termos um amor ideal pelo ser imaginado. Tolice pura, filho amado, se esperar por esse Frankenstein da perfeição, ser desumanizado, impossibilidade concreta e abstrata. Alias, guri, posso te garantir que Ser Perfeito já existe: Ele nos apresentou um ao outro, acendeu nossos corações e nos acompanha pelo caminho. Ele é Amor.

Essa idealização não nos pertence: somos nós de carne, osso e alma, de tentativa-erro-e-acerto. A perfeição não está na gente, está no amor que a gente sente. Nós dois somos parte de uma mirabolante história que acabou bem, felizes-para-sempre, porque nós queremos que assim seja. A simplicidade desta nossa decisão é desconcertante: você me quer para pai, eu te quero para filho, e nós juntos queremos amar o mundo. Todo o resto é conversa para boi dormir.

Uma coisa me alegra. Nos encontramos numa época boa. Se fosse antes, bem antes mesmo, eu seria seu dono, português branco, e você, meu escravo africano. Assim era em função da burrice humana e da cor da nossa pele. Esquisito, não é? Mas hoje é diferente: você pode ser meu filho e eu posso ser seu pai. Por amor que sinto, a vingança do destino brincalhão me fez cair do posto de patrão, de dono, de vilão. Virei eu um servo deste sentimento, deste afeto caudaloso que me borbulha alma a fora. Branco bobo de amor, escravo voluntário de carinho vivido.

Bem, filhinho, já escrevi demais. O amor é para ser vivido em grama verde, de corrida e pega-pega, sob o céu de brilho azul. Vamos para lá, para o mundo real, de piquenique e cabra-cega, de dever de casa e banho quente. Mundo que, ao teu lado, faz sentido em meu viver.

Sávio Bittencourt

Pai adotivo e biológico, o Procurador de Justiça Sávio Bittencourt é um dos fundadores do Quintal da Casa de Ana – Grupo de Apoio à Adoção de Niterói, foi Presidente da ANGAAD (Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção) na gestão 2007-2009. É autor dos livros “A Nova Lei da Adoção – do abandono à garantia do direito à convivência familiar e comunitária”, “Revolução do Afeto” e “Guia do Pai Adotivo”, Nino e a Casa dos Meninos Invisíveis e articulista do jornal O Estado (CE).