Conteúdo do curso
MÓDULO 01 – Sociedade, comunidade e grupos
Maria Sueli dos Santos – Assessora na área de Serviço Social da Diretoria Técnica da Angaad e voluntária do GAA de Indaiatuba /SP
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MÓDULO 02 – ODS 4 (Educação de qualidade) e ODS 12 (Consumo e produção responsáveis)
Maria Rita Cabral Sales de Melo – Prof.ª do Departamento de Biologia/UFRPE – Mestre e Doutora em Botânica
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MÓDULO 03 – ODS 16 (Paz, justiça e instituições eficazes) e ODS 17 (Parcerias e meios de implementação)
Sara Vargas – Diretora de Relações Públicas da Angaad e Voluntária do GAA de Uberlândia/MG
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MÓDULO 04 – Relações humanas e diversidade
Aline Santana – Psicóloga e voluntária do GAA de Salvador/BA
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MÓDULO 05 – Ética, cidadania e respeito
Sávio Bitencourt – Procurador de Justiça MPRJ - Cofundador do GAA Quintal de Ana (Niterói/RJ)
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MÓDULO 06 – Atitudes adotivas (Conceito, fundamentos e práticas de atitude adotiva nos diversos ambientes de convivência)
Naiana Shimaru - Psicóloga e voluntária do GAA Pontes de Amor (Uberlândia/MG)
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MÓDULO 07 – Convivências familiar e comunitária
Maria da Penha Oliveira Silva – Psicóloga e voluntária do GAA de Brasília/DF
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Adoptive Attitudes Transform Lives

Vídeo e conteúdo legendados por Inteligência Artificial


Projeto “Atitudes Adotivas transformam vidas”

Módulo 6

ATITUDES ADOTIVAS

– Conceito, fundamentos e práticas de Atitude Adotiva –

NAYANA SHIMARU

Psicóloga, psicanalista Graduada, Especialista, Mestre e Doutoranda em Psicologia (UFMG) Treinadora licenciada em TBRI (Trust-Based Relational Intervention) pelo Karyn Purvis Institute of Child Development, Texas, EUA. Membro do Núcleo de Pesquisas CAVAS/UFMG (Estudos Psicanalíticos sobre violência sexual contra crianças e adolescentes). Supervisora clínica e membro do Instituto CAVAS. Voluntária do Grupo de Apoio à Adoção Pontes de Amor – Uberlândia/MG

 

Atitude Adotiva

Os conceitos são construções mentais que nos permitem estruturar o conhecimento e oferecer compreensão e organização da realidade, dando espaço a novas janelas de pensamento, influenciando o processo de raciocínio, a tomada de decisão e a resolução de problemas. Nesse sentido, é potente nos aprofundarmos no conceito de “atitude adotiva”, de modo que estaremos mais capacitados a identificar a sua necessidade nos ambientes de convivência comunitária e a criar possibilidades de exercê-la, a fim de intervir na realidade, ampliando a sua prática transformadora.

A expressão “atitude adotiva”, inicialmente, conduz nossa atenção para as famílias formadas por adoção, enfatizando a importância de os pais/mães adotivas tomarem uma postura de acolhimento, cuidado e comprometimento com seus filhos/filhas. No entanto, essa ideia se estende a todo contexto que envolva responsabilidade social, abrangendo todas as relações interpessoais, desde as mais íntimas até as interações em comunidade e com o meio ambiente. Como membros desses contextos, somos afetados e intervimos, sendo corresponsáveis pelo todo.

Na primeira parte desta aula, vamos explorar, de modo mais aprofundado, os aspectos psicológicos subjacentes ao conceito, analisando as condições que possibilitam o que chamamos de atitude adotiva. Após examinar seus princípios e suas características, na segunda parte da aula, vamos trazer ilustrações, nos diferentes âmbitos de sua aplicação prática.

  1. ASPECTOS PSICOLÓGICOS

Existem características que estão no cerne da atitude adotiva e que a fazem desempenhar um papel positivo na promoção de interações humanas saudáveis e na criação de ambientes harmoniosos e inclusivos. Para explorarmos os aspectos psicológicos desse fenômeno, vamos nos deter às características que o distinguem. Nos dizeres das pesquisadoras Eneri Albuquerque e Jaciara Santos Arruda:

Amorosidade – Acolhimento – Respeito – Solidariedade – Empatia – Sinergia (Eneri Albuquerque e Jaciara S. Arruda)

A atitude adotiva possui as seguintes características amorosidade (amor incondicional), acolhimento (abertura e flexibilidade de aceitação), respeito às singularidades (respeito às diferenças individuais), solidariedade (generosidade para com o outro), empatia (colocar-se no lugar do outro, compreendendo seus sentimentos e emoções), sinergia (sincronização de ações de um grupo de maneira sistêmica para alcançar um determinado resultado).

 

Tais atributos, poderíamos dizer, não são qualidades tão fáceis de assumir.  Partindo de um ponto de vista da psicanálise, que é meu campo de atuação, vamos nos deter ao fenômeno da atitude adotiva através das seguintes questões:

  1. Haveria uma capacidade de atitude adotiva, ou seja, um equipamento psíquico mais propício a exercê-la?
  2. É possível desenvolver a competência e a habilidade de atitude adotiva? De quais maneiras?

 

Alteridade

Diante das características elencadas, nos parece que um conceito fundamental para se refletir acerca desse fenômeno é a alteridade, que se refere à percepção e ao reconhecimento da existência de outras pessoas, suas experiências, perspectivas, identidades e realidades, que são distintas das nossas próprias. No entanto, o “eu”, quando não encontra o espelho, ou seja, quando não encontra a si mesmo, a suas preferências e expectativas, nem sempre sabe lidar da melhor maneira com o que viu.

Podemos dizer que há pessoas que, ao se depararem com a alteridade, podem se sentir ameaçadas em seu “eu” e produzirem movimentos de ódio, vingança (desforrar a ofensa), negação da realidade (aquilo de que “se eu não vejo, não existe”) ou dividir a situação em “tudo ou nada” (ou um lado bom e um lado mau).

Já outras pessoas possuem uma capacidade maior de passar pela diferença, de aceitar a realidade, de perceber e acolher o outro com toda a sua singularidade, seja esse outro um indivíduo, um grupo ou uma situação inesperada. Essa capacidade se manifesta em virtude de uma operação muito refinada do psiquismo, que chamamos de luto primário. Podemos dizer que o luto primário faz parte do desenvolvimento emocional da criança e diz respeito ao luto da própria onipotência, ou seja, fazer o luto de ter poder e autoridade ilimitados.

Explico melhor, me lembrando de que, em uma discussão teórica, o psicanalista argentino Luiz Kancyper realizou a paródia de uma expressão popular que facilmente reconhecemos em português:   “Dime como dueles y te diré quién eres”.

Dime como dueles y te diré quién eres Luiz Kancyper (Psicanalista)

O verbo que substituiu “andar” é o “doer” (doler) que, no idioma do autor, ofereceu através de uma inabitual conjugação do verbo doer (doler- tu dueles) a sua aproximação com o substantivo luto (duelo). Ou seja, ele estava dizendo “diga-me como você dói, como você lida com as perdas da vida, e eu direi quem você é, terei pistas da sua história constitutiva”. Isso porque nossa subjetividade é constituída a partir do encontro com as nossas figuras de cuidado, que refletem, posteriormente, na nossa vida adulta, nos modos de lermos a realidade e de nos relacionarmos.

Quando nascemos, não somos de cara “eu” e “tu”, somos misturados com o cuidador e, pensando junto com a psicanalista Melanie Klein, no início, a criança se encontra em uma posição que ainda não desenvolveu a capacidade de integrar e compreender a complexidade das experiências emocionais, que ela chamou de posição esquizoparanoide. A criança tende a ver o mundo de forma fragmentada e polarizada, sem reconhecer a ambivalência ou a nuance nas relações interpessoais. Há uma tendência da criança em separar suas experiências e sentimentos em partes boas e más e de projetar seus próprios sentimentos indesejados para fora, direcionando-os sobretudo às figuras parentais. Além disso, ela manifesta sentimentos de perseguição e ergue defesas psíquicas para lidar com tais angústias.

À medida que o cuidador, como figura de confiança do bebê, vai oferecendo um ambiente seguro, acolhedor, uma frequência suficiente nos cuidados, oferecendo momentos de gratificação na relação intersubjetiva, ele cria para aquela criança condições de possibilidade para que ela, gradualmente, aceite a realidade e vá fazendo o luto de sua onipotência. Ou seja: a criança vai reconhecendo que o leite não vem sempre que ela deseja, que pode ter barulhos no ambiente, que o cuidador pode demorar mais tempo do que ela gostaria… a criança vai abdicando da posição de poder absoluto.

Nesse lar em que se tem confiança e segurança como bases e um cuidado suficientemente bom (ou seja, um cuidado que enxergue a criança como um sujeito, um cuidado que não seja invasivo demais ou negligente), o bebê vai tendo solo fértil para criar recursos para lidar com o ambiente, com o reconhecimento do “outro”, que é diferente do “eu”. Nesta etapa do desenvolvimento emocional, que Klein define como posição depressiva, há características como: preocupação com o “outro” (a possibilidade de feri-lo é notada), culpa e a tentativa de reparação.

E é aí que está o ponto para falarmos da capacidade de atitude adotiva: é necessário que haja essa renúncia narcísica que seria renunciar ao próprio mundo, ao ensimesmamento. Se o leite não vem, não é porque eu estou sendo atacado/abandonado e sim, porque naquele momento, o dono do leite tem suas coisas próprias para fazer. Em certa medida, somos exigidos a essa renúncia narcísica até o fim da vida. Prescindir da onipotência é essencial para germinar um espaço para a alteridade, para os desconfortos e hesitações, para as complexidades que mostram todas as tonalidades entre extremos “tudo” ou “nada”, “bom” ou “mau”. Essa fase marca o início da capacidade de desenvolver empatia e preocupação pelos outros. O bebê começa a reconhecer que suas ações podem afetar os outros e, portanto, desenvolve um senso incipiente de responsabilidade emocional e de gratidão.

Muitas intercorrências existem no amadurecimento de uma criança, que não vamos entrar aqui e agora, mas nos basta dizer que a criança pode não ter conseguido realizar o referido luto primário. O funcionamento psíquico dela estará mais regido pelas angústias e defesas primitivas. Desse modo, certamente haverá dificuldades em aceitar as diferenças e desencaixes promovidos pela alteridade. Por exemplo, não aceitar o término de um relacionamento, sentir a existência do outro como um ataque à própria integridade, negar a presença de uma pandemia evidente, tratar semelhantes como inferiores (por exemplo, fenômenos como feminicídio, racismo, xenofobia, homofobia, bullying…).

Feminicídio – Racismo – Xenofobia – Homofobia – Bullying

Então, respondendo a pergunta a que nos propusemos: existe uma capacidade para atitude adotiva, um equipamento psíquico que facilite a sua execução? Sim! As nossas primeiras relações com nossas figuras de cuidado são fundamentais para os nossos modos de relação, interpretação da realidade e reconhecimento do outro enquanto diferente de mim. É necessário abdicar-se de uma condição de autorreferência, de perceber que “sou único em minha singularidade”, sim, mas como qualquer pessoa também é.

Mas o que podemos fazer nos casos em que esse aparato psíquico não facilita a habilidade de ter atitude adotiva? Então, passamos para a próxima questão a que nos propusemos responder: todos podemos ampliar a nossa capacidade de ter atitude adotiva? De quais maneiras?

Assim como as relações intersubjetivas nos ferem, elas também nos modificam positivamente, então, percebemos a importância de se criar uma cultura adotiva, possibilitando caminhos para que haja assimilação dessa postura. Então, sim, todos podemos ampliar a nossa capacidade adotiva. Se as relações são baseadas em confiança, acolhimento e escuta, há a possibilidade de transformação da subjetividade e do ambiente. Por exemplo, uma sociedade que tem a cultura do machismo é uma sociedade que permite determinados comportamentos que prejudicam e matam as mulheres, a violência se naturaliza. Desse modo, a criação da cultura adotiva influencia cada sujeito que dela faz parte.  Freud, em seu texto “Por que a guerra?”, mostra a importância do avanço da cultura na regulação e na sublimação de impulsos agressivos, canalizando-os para atividades construtivas. Quanto mais se promove a cultura, o conhecimento, via educação, arte, ciência e ética, menos espaço há para tendências beligerantes e maior possibilidade, portanto, de se construir uma sociedade mais equilibrada.

Além disso, buscar conhecer a si próprio é um dos caminhos mais seguros para lidar com a alteridade. Para isso, podemos nos fazer questionamentos. Como eu lido com as perdas? Eu fico no modo ressentimento (ou seja, ressentindo e pensando sempre que poderia ter sido diferente? Eu fico no modo agressivo? Ou aceito que as coisas e pessoas ocorrem à minha revelia?). Quando alguém comunica um incômodo que diz respeito a mim, como reajo? (Sei escutar apesar de não gostar do que escuto?). Quando meu filho está gritando, qual a minha postura? (Quais expressões faciais eu faço, o que entendo daquele grito? É ofensivo para mim ou entendo que é uma criança que ainda não aprendeu a expressar sua necessidade?). No trabalho, quando ouço uma ideia diferente da minha, como lido com isso? Acolho ou quero impor a minha ideia?

Assim, repensar a si mesmo (situações de perda, relações de família, de trabalho e em sociedade) aparece no nosso horizonte como um solo fértil, porque quanto mais sei sobre mim, mais consigo não me incomodar com o que vem do diferente de mim, ou seja, mais consigo exercer a atitude adotiva. Terapia e meditação são formas de saber mais sobre si, para além da reflexão intelectual consigo mesmo.

Não realizar julgamentos ao escutar o outro, ou seja, tentar abdicar da sua leitura da questão para poder escutar a leitura do outro, ser flexível. Somente assim, pode haver espaço para a subjetividade, criatividade e transformação, do contrário, será o deserto amorfo de uma autoridade absoluta (no caso de imposição de algo) ou de uma submissão ao outro (aceitar esse algo sem se manifestar).

Outro ponto importante, como vimos inclusive na gênese da capacidade psíquica de se ter atitude adotiva, é estabelecer relações baseadas na confiança.

Confiança de que ambas as partes podem demonstrar vulnerabilidade e que isso pode ser acolhido; confiança de que ambas as partes podem ser respeitadas em sua singularidade; confiança e espaço para erros e aprendizados, eliminando o medo e as atitudes defensivas.

 

“As relações humanas são baseadas na sinceridade” Albert Eiguer (psiquiatra e psicanalista)

 

Como nos lembra Albert Eiguer, psiquiatra e psicanalista, “as relações humanas são baseadas na sinceridade: temos necessidade de acreditar no outro, não podemos estar sempre à defesa.”

Pensando em termos práticos, a comunicação também é um ponto crucial nas relações intersubjetivas. O livro “Comunicação Não-Violenta: Técnicas para Aprimorar Relacionamentos Pessoais e Profissionais”, de Marshall Rosenberg, aborda o conceito e a prática da Comunicação Não-Violenta (CNV), que intenta melhorar a qualidade das interações humanas, promover a empatia e a escuta, resolver conflitos de forma construtiva e cultivar relacionamentos saudáveis.

 

“Comunicação Não-Violenta” Marshall Rosenberg

O autor desenvolve os componentes essenciais da CNV, que incluem: a) Observação: a habilidade de observar de forma objetiva e específica o que está acontecendo em uma determinada situação, sem julgamento ou interpretação. b) Sentimento: a capacidade de identificar e expressar os sentimentos próprios a partir do acontecimento observado. c) Necessidade: a habilidade de comunicar essas necessidades de forma clara e assertiva. d) Pedido: a capacidade de fazer pedidos claros, específicos e concretos que expressem de forma positiva o que queremos que aconteça, levando em consideração as necessidades de todas as partes envolvidas. A CNV, portanto, relaciona-se intimamente com a atitude adotiva.

Por fim, a intenção de se ver implicado em qualquer relação intersubjetiva é fundamental para uma atitude adotiva. Há uma pergunta de terapia psicanalítica que podemos pegar emprestada para finalizar os elementos que expandem nossa habilidade: qual é a minha responsabilidade na desordem da qual eu me queixo? A consciência de que fazemos parte do todo e, por isso, por esse todo somos corresponsáveis, permite-nos transformar realidades.

Retomemos então os pontos que ampliam nossa capacidade de atitude adotiva:

  • Criar uma cultura de atitude adotiva
  • Buscar conhecer a si próprio
  • Não realizar julgamentos ao escutar o outro/ flexibilidade
  • Relações baseadas na confiança
  • Comunicação Não Violenta
  • Corresponsabilidade

Tendo o conceito de alteridade como guia e esses elementos que estendem a habilidade sobre a qual estamos nos debruçando, passemos agora a refletir sobre as ressonâncias da atitude adotiva em diversos âmbitos de convivência.

 

  1. ATITUDE ADOTIVA NA FAMÍLIA

Passemos a falar agora do que é o berço da expressão que estamos investigando aqui. As famílias adotivas. Sabemos que a filiação adotiva nasce do encontro entre duas partes: de um lado, temos uma pessoa ou um casal que deseja adotar e, da outra parte, uma criança ou um adolescente que necessita de uma família. Parece aquele encaixe simples e perfeito de um conto de fadas, mas, como vimos, todo encontro com o diferente de nós é um encontro descompassado e é exatamente nesse ponto que mora a possibilidade de se vincular de modo saudável com o filho. Caso não haja espaço para aceitar o filho ou os pais reais, a adoção pode resultar em frustração, ódio, conflito crônico, abafamento da subjetividade da criança ou do adolescente e até mesmo desistência/abandono do filho.

Se os pais alimentam expectativas inadequadas e possuem postura muito rígida em relação ao filho que chega pela via da adoção, ressentem-se quando tais expectativas não são cumpridas. Nesse contexto, algumas vezes, consideram que isso ocorre por não ser o seu filho biológico, alimentando um estranhamento no vínculo filial e tendo o que a psicanalista e estudiosa da adoção Gina Levinzon caracterizou como “fantasias de mau sangue”.

“Fantasias de mau sangue” Gina Levinzon

A flexibilidade e a aceitação das particularidades do filho real provenientes de uma atitude adotiva são imprescindíveis na construção do vínculo.

Outro ponto é que, como vimos anteriormente, faz parte da habilidade de atitude adotiva procurar saber de si mesmo e nem sempre aquela pessoa ou casal que deseja adotar refletiu acerca das motivações por trás da adoção. Toda pressão social por ter filho, fazer uma boa ação, ter companhia, ter herdeiros, salvar casamento, escolher o gênero da criança, dar um irmão ao filho biológico, substituir um filho que morreu: nada disso é razão que sustente uma adoção.  Quem adota, também, pode ainda estar passando por um luto (por um filho biológico ou outra perda) e não conseguir enxergar a criança ou o adolescente que chegou a sua família, ou, também, pode começar a vê-la como um sinal da sua perda anterior. A motivação na adoção e a elaboração da própria história dos pais para acolher a criança ou o adolescente influenciarão na conexão entre pais/mães e seus filhos.

 

Uma família por adoção deve nascer do desejo de exercer a atitude adotiva.

Uma família por adoção deve nascer do desejo de parentar e, podemos dizer com o nosso conceito formulado, do desejo de exercer a atitude adotiva.

Também é atitude adotiva olhar para a história anterior da criança ou do adolescente. A maioria das crianças e dos adolescentes que aguarda por uma adoção no Brasil passou por graves violações de direito, seja negligência, violência sexual, física ou psicológica. Por isso, o Estado intervém e essa criança fica aos seus cuidados até o seu retorno para a família (de origem ou extensa), após um trabalho psicossocial, a fim de que a família possa recebê-la de volta em segurança. Quando se percebe a impossibilidade de retorno, há a necessidade de destituição do poder familiar e a criança, por sua vez, fica à espera de uma adoção. Assim, quando a criança chega nessa família adotiva, ela já tem um histórico e muitas de suas vivências podem ter sido traumáticas. Isso irá impactar na visão que a criança tem sobre si, no seu corpo, na sua biologia, afetando de modo incisivo os seus modos de relação com o outro e com o ambiente. A atitude adotiva engloba o acolhimento de sua história e suas vivências, porque, por mais que sejam histórias difíceis, elas fazem parte da identidade daquela criança ou daquele adolescente e devem ser acolhidas pela família, ainda que a adoção tenha ocorrido no primeiro dia de vida do filho/filha.

 

A verdade da adoção é essencial para estabelecer bases de confiança na relação familiar.

Isso nos leva a outro ponto importante desse campo: a verdade da adoção é essencial para estabelecer bases de confiança na relação familiar. O ideal é que seja falada desde sempre, deixando livre o caminho para a curiosidade da criança em relação a suas origens, o que pode, inclusive, ser crucial para seus processos de aprendizagem. Ou seja: isso diz daquele ponto da atitude adotiva que trata da confiança nas relações.

Assim, percebemos que o preparo dos pais para receber essa criança que carrega essas especificidades é fundamental. Não dissemos que há especificidades para diferenciar filhos adotivos, estereotipar ou colocá-los em uma condição especial. O contexto não é esse. Fazemos esse destaque para dar foco à importância do preparo dos pais e para possibilitar que esse filho adotivo tenha as melhores condições para seus processos de vinculação e subjetivação.

A atitude adotiva deve se dar também por toda a família extensa, a criança precisa de se sentir pertencente.

 

“A Atitude Adotiva é colaborativa, cooperativa.” Suzana Schetinni

Suzana Schetinni, psicóloga e estudiosa da adoção, nos lembra que é preciso ter paciência, ou seja, atitude adotiva até com aqueles familiares que não aceitam a adoção, de modo a não os excluir, mas, sim, trazer à tona o assunto, para que aos poucos, eles possam ir assimilando essa forma de família como qualquer outra e possa haver uma transformação da família como um todo.

A criança e o adolescente adotivos também necessitam de um preparo e consideramos crucial que esse preparo englobe a possibilidade dessa criança ou desse adolescente também exercer a atitude adotiva para com os pais/mães, já que os filhos/filhas também os adotam. Suas expectativas em relação à família adotiva, bem como seus medos de estar em uma nova família, a fidelidade em relação à família de origem e, sobretudo, a elaboração em relação às vivências traumáticas são elementos que podem ser trabalhados para ampliar a capacidade de atitude adotiva em relação aos pais adotivos. Tal trabalho pode começar a ser feito antes da adoção, mas também não é imediato, ou seja, as sementes podem ir sendo plantadas para alicerçar esse processo de construção de filiação.

Por fim, destacamos a atitude adotiva de outros recursos disponíveis, como os grupos de apoio à adoção, o apoio psicológico, a terapia familiar e outras instituições sociais que colaboram na criação de laços afetivos e efetivos.

 

  1. ATITUDE ADOTIVA NOS DIVERSOS ÂMBITOS DE CONVIVÊNCIA COMUNITÁRIA

Não podemos negligenciar a discussão sobre atitude adotiva nos diferentes âmbitos de convivência comunitária, pois percebemos até aqui que essa postura desempenha um papel crucial na formação e no fortalecimento dos laços sociais e na criação de uma cultura que favoreça todos os seres que a compõem. Analisaremos, com pequenas ilustrações, como a atitude adotiva pode contribuir nas demais esferas sociais:

  • Nos relacionamentos íntimos, de casal, de amigos e de família:

No contexto do relacionamento de casal, não é incomum que na fase de apaixonamento os dois se misturem, tendo a ilusão de onipotência e correspondência imaginárias, de formarem só um. Aos poucos, as diferenças subjetivas vão aparecendo e muitos casais acabam terminando por não aceitarem a subjetividade um do outro. Muitos litígios parecem estar aprisionados nessa dinâmica e os filhos, muitas vezes, acabam sofrendo pela ferocidade dos pais de atingirem um ao outro, pois ficaram na lógica da onipotência, do controle da vida um do outro.

Quando as partes conseguem se arranjar nas diferenças, o espaço para o amor é criado e podem caminhar juntos lidando com conflitos e incômodos que aparecem. A atitude adotiva, trazendo todos aqueles elementos discutidos na primeira parte da aula, mostra-se potente para um relacionamento saudável.

Não é tão diferente quando falamos de amigos e outros familiares. Tem pessoas que tomam como ofensivo, por exemplo, quando um amigo recusa um convite ou algum favor. A atitude adotiva diz da compreensão e do respeito aos motivos do outro e que a existência deles não pode ser uma ofensa à integridade do próprio “eu”.  Do mesmo modo, a liberdade de impor limites que sejam necessários é crucial na relação saudável e diz da atitude adotiva, pois entende que o “eu” tem suas particularidades e manifestá-las não pode destruir o laço instituído.

  • Na Escola:

Na escola, a atitude adotiva contribui na maneira como educadores, estudantes e pais se relacionam entre si e com o ambiente de aprendizado. Isso inclui promover uma cultura de respeito, inclusão e colaboração, em que todos os membros da comunidade escolar se sintam valorizados e respeitados. Para isso, muitas dinâmicas que explorem os valores humanos da atitude adotiva podem ser feitas. Por exemplo, em uma sala de aula, cada um pode escrever em um papel anônimo um problema que gostaria de resolver. Os papéis se misturam e, depois, cada um abre um papel e o lê em voz alta. O estudante que lê tenta propor uma solução para a questão de outro aluno e abre a conversa para dar voz a todos que quiserem abranger a discussão.

 

Comunicação Não Violenta

É importante recordar elementos que embasam a atitude adotiva, propondo a utilização e o treinamento da CNV, lembrando-os de não fazer julgamentos do que lerem. A dinâmica enfatiza a corresponsabilidade, a solidariedade, a valorização de cada um (todos possuem voz). Com atividades como a dessa ilustração, é possível ir cocriando com os estudantes uma cultura de atitude adotiva, permitindo enfrentar questões como bullying, violência contra professores, entre alunos e autoagressão.

  • No Ambiente de trabalho da Rede de Proteção:

Sobre o ambiente de trabalho, tomaremos como ilustração a rede de proteção à criança e ao adolescente, que é o nosso métier. A atitude adotiva se traduz na disposição de colaborar, compartilhar recursos e apoiar uns aos outros na realização de objetivos comuns. Isso inclui estar constantemente atento à comunicação aberta e honesta entre os membros da equipe, estimulando fóruns de trabalho que permitam explorar as visões de cada profissional, partindo do princípio que é preciso confrontar ideias para se criar melhores soluções para os problemas. Nesses ambientes, também pode-se estimular o cuidado de si, uma vez que são profissões de cuidado e o próprio profissional pode estar sendo negligenciado. Isso nos faz lembrar que a atitude adotiva consigo mesmo também é importante para promover melhores condutas interrelacionais.

 

  1. Na Sociedade:

Ruy Proença, que é poeta e tradutor brasileiro, nos brindou com esse poema:

 Antigamente Diziam: cuidado, As paredes têm ouvidos. Então, falávamos baixo, Nos policiávamos. Hoje as coisas mudaram: os ouvidos têm paredes. De nada Adianta Gritar. Ruy Proença (poeta)

Esse poema, que se chama “Tiranias”, no seu título já revela uma posição que pode ser considerada oposta à cultura da atitude adotiva e avesso a tudo aquilo que defendemos até então. Ele mostra duas formas de repressão. A primeira é uma metáfora que sugere uma repressão acontecida no passado em que a vigilância e a intrusão do poder autoritário massacravam a subjetividade das pessoas, levando-as a se esconder, com medo de represálias caso dissessem algo considerado inadequado pelo regime vigente. Algo de fora impondo um muro para a expressão da subjetividade e do diálogo. A segunda forma de repressão parece mais atual, que é de dentro para fora. As pessoas, completamente imersas em suas próprias bolhas sociais e preocupações pessoais, parecem estar mais insensíveis ao que se passa ao redor, às injustiças sociais, aos problemas ambientais, como o aquecimento do planeta e o desmatamento, às ideias distintas das próprias, àquilo que causa desconforto. Ou seja, os muros foram erguidos por elas próprias. Ou melhor, por nós mesmos, porque eu mesma me incluo nesse sistema atual. O sistema produtivista em que vivemos enfatiza a competição, o individualismo e uma mentalidade de “cada um por si”, o que reforça o isolamento e a falta de interação.  Não há disposição para o diálogo. É claro que, por exemplo, como dissemos, faz parte da atitude adotiva buscar saber mais sobre si e, em se tratando de discussões sociais, do que é inegociável para si mesmo. Mas, reconhecendo isso, é mais fácil se abrir para o outro e produzir diálogos que nos levem a encaminhamentos mais construtivos em oposição a agressões, violências e negligências.

Precisamos combater esse mecanismo em que fechamos nossos muros e colocamos aqueles diferentes de nós em uma categoria inferior para diminuirmos a nossa angústia. Desumanizamos quem não queremos ver e isso é perigosíssimo, pois abre precedentes para naturalizarmos as situações de injustiça e violência. Por exemplo: pessoas negligenciadas que não têm as condições básicas de sobrevivência, o feminicídio, a homofobia, o racismo, o massacre de indígenas…

A partir de todas as reflexões que tecemos até aqui, definitivamente devemos nos perguntar: qual o paradigma social que queremos viver?

 

Que paradigma social queremos viver?

Nesse contexto, a cultura da atitude adotiva representa uma ruptura com essa mentalidade. Ela desafia a lógica da competição e do isolamento e, em vez disso, promove a ideia de que somente implicados nas questões sociais, das quais fazemos irremediavelmente parte, possibilitamos caminhos para as transformações sociais que almejamos.

Assim, nós encerramos mais uma etapa do projeto que nos mostra que “Atitudes Adotivas Transformam Vidas”.