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Projeto “Atitudes Adotivas Transformam Vidas”
Módulo 1
SOCIEDADE, COMUNIDADE, GRUPOS E ATITUDE ADOTIVA
MARIA SUELI LIMA DOS SANTOS
Assistente Social Especialista em Infância e Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes Assessora da Diretoria Técnica da Angaad Voluntária dos Grupos de Apoio à Adoção Projeto de Vida (Indaiatuba/SP) e Laços e Afetos (Salto/SP)
Iniciando os módulos da fase de estudos à distância, no projeto “Atitudes Adotivas Transformam Vidas”.
Neste módulo, vamos tratar sobre Sociedade, Comunidade, Grupos e Atitude Adotiva.
Sociedade O que você entende como Sociedade?
Uma sociedade se define pelo acordo de pessoas muito distintas umas das outras, às vezes com pouco em comum, além do fato de pertencerem à mesma sociedade, o que pressupõe uma complexidade.
Etimologicamente, a palavra sociedade é originária de dois termos latinos: socius, que pode ser traduzido por “parceiro” ou “companheiro”, e societa, que significa a “associação entre comuns”.
O conceito de sociedade é fundamental para o estudo das relações. Elas são estabelecidas entre os indivíduos que partilham valores, cultura, território e história. Uma sociedade é uma estrutura ampla, na qual os sujeitos estabelecem relações, quase sempre impessoais, mas que possuem um aspecto de coletividade, fato que originou o desenvolvimento da Sociologia como ciência.
Os seres humanos juntam-se, desde os primórdios, em grupos para facilitar a sobrevivência. Isso nos faz entender que, de maneira geral, há uma espécie de rede de relacionamentos entre as pessoas, que configura a sociedade como um todo.
Nas instituições como a família e a religião, sempre foram identificadas a existência de ordem hierárquica e de regras definidas de convívio coletivo. Independente da percepção consciente, pessoas e grupos aderem às regras sociais, com ou sem a sua vontade. Isso pode se dar inclusive por meio de sanções ou punições, caso não haja concordância, o que institui um espaço de sociabilidade humana.
Um exemplo comum é a educação atribuída aos indivíduos como obrigatória. Ela já tem uma existência como instituição anterior às pessoas e é um fenômeno que se verifica na totalidade da sociedade.
A formação da sociedade, porém, deve respeitar uma legalidade. Ela aponta para a celebração do contrato entre pessoas naturais ou jurídicas, na intenção de se unirem para assumirem os riscos e partilharem os resultados do exercício da atividade contribuindo reciprocamente.
Desta forma, a sociedade não é um amontoado de pessoas, mas um sistema organizado, ordenado em uma estrutura social, com um arcabouço normativo e com instituições formais e informais (Estado, Igreja, Escola entre outras).
Outro conceito relacionado à sociedade é o de civilização. Ela amplia a visão no curso do espaço-tempo, em que culturas e sociedades se erguem e se projetam com o desenvolvimento da criatividade e da vivência humana. Elas se utilizam da linguagem, da sensibilidade, do sentido dos prazeres e das dores individuais e coletivas, para se desenvolverem, tanto em momentos de harmonia quanto de conflitos.
A cultura é modificada conforme nossos valores, que nos dirigem a ordenamentos em variados níveis.
A arte utiliza-se da cultura como matéria prima, mas a cultura abrange um universo que pode nos definir, moldar e ativar como sujeitos. A cultura nos possibilita agir de forma semelhante aos pequenos grãos de areia na praia, dada a sua imensidão e universalidade.
O universo cultural é um processo do encontro de diferentes grupos. Suas culturas estabelecem trocas, que resultam na modificação destas, ou seja, na aculturação.
Podemos imaginar que a cultura é alterada, conforme nossos valores. A adesão a determinadas manifestações culturais presentes na sociedade, como a língua, a tradição e os costumes, possibilita o surgimento de rupturas e desregramentos. Ela origina uma educação plural, inclusiva e contextualizada, contribuindo para a formação integral dos indivíduos. Assim, ao promover a diversidade cultural, a movimentação cultural contribui para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.
Nesta fusão ou aculturação, os aspectos de uma e de outra aparecerão. É o que acontece com a cultura brasileira, que surgiu com a cultura indígena e absorveu, pela colonização, traços das culturas africana e europeia. Podemos dizer que o encontro destas culturas é um processo sociológico e antropológico, mas que historicamente nem sempre ocorreu de forma pacífica.
Atualmente, podemos considerar que a aculturação vem se tornando um dos aspectos fundamentais da sociedade, dada a crescente globalização, a proximidade das culturas, a rapidez da comunicação e a troca de informação entre países. Alguns autores sustentam que as culturas estão perdendo sua identidade, aderindo em parte a outras culturas. Um exemplo disso são os elementos da cultura ocidental, cada vez mais presentes em países orientais.
Com a crescente facilidade da comunicação, estamos expostos a novos conhecimentos e aprendizados, que através de diversas informações oferecidas constantemente, oportunizam novas transformações culturais.
Destacamos, desta forma, como é importante compartilhar, crescer, possibilitar que todos ganhem. E este ganho não é material. Ele é interior, ético e moral, visto que proporcionará diversão, entrosamento, respeito, acolhimento e convivência harmônica.
No contexto da sociedade contemporânea, a família é considerada como núcleo central da sociedade. Porém, ela se transformou, abriu espaço e assumiu outras composições familiares, além das famílias tradicionais consanguíneas. Temos, por exemplo, as adotivas, as monoparentais, as famílias de recasamentos, as homoafetivas, as formadas por gametas de doadores, as por inseminação in vitro, e as formadas por útero substituto.
Estas transformações sociais exigem de cada um de nós um novo entendimento, aceitação, respeito, ética e posturas mais humanas.
A instituição familiar requer, nos dias de hoje, a superação de preconceitos. Eles instigam atitudes violentas em relação aos adultos e, principalmente, às crianças e aos adolescentes provenientes de configurações familiares diferentes das tradicionais consanguíneas. Destacamos aqui as crianças e adolescentes que residem em instituições de acolhimento, em famílias acolhedoras, as que possuem diferentes etnias, religiões, necessidades especiais ou provindas das situações de vulnerabilidade e riscos sociais.
A partir da promulgação da Constituição Federal de 1988 e do Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, nossa sociedade modificou o paradigma em relação a como olhar e cuidar de crianças e adolescentes. Antes, muitas delas eram amontoadas, abandonadas em grandes instituições, em orfanatos abarrotados. Como sujeitos de direitos passaram a ser vistas e protegidas. Para também defender os direitos destas crianças e destes adolescentes, foi iniciado, no final dos anos 1980, o Movimento Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção, promovendo ações em favor delas, que até então não eram vistas.
Este Movimento deu origem à Associação Nacional de Grupos de Apoio à Adoção, a Angaad, que se instituiu em 21/05/1999. Ela principiou uma transformação sociocultural, em âmbito nacional. Assim, a ação de pais, filhos, pretendentes à Adoção e profissionais das áreas de Psicologia, Pedagogia, Serviço Social e Direito, modificou a convivência familiar e edificou a “Nova Cultura de Adoção”.
O psicólogo Fernando Freire auxiliou na formação de diversos serviços, os Grupos de Apoio à Adoçao – GAAs, para desenvolver a nova cultura em torno da Adoção. O termo foi utilizado para desmistificar e diminuir o preconceito em relação as famílias e à criança e ao adolescente abandonados. A relação, que era significativamente afetiva e paternal, começou a ser entendida como consciente, legalizada e segura. O objetivo foi oferecer às suas famílias a legalidade, o reconhecimento, o entendimento e os mesmos direitos sociais das famílias tradicionais consanguíneas.
Comunidade
A transformação da família e a ampliação do respeito à convivência familiar afetaram a comunidade.
Então, compreendermos que, para falar em sociedade, precisamos passar pelo conceito de comunidade. Ele costuma se referir a agrupamentos amalgamados por traços de identificação. Para entendê-la, buscamos o conceito de solidariedade social trazido por Émile Durkheim[1]: quando os integrantes de uma comunidade partilham sentidos, práticas, lugares e repertórios que lhes são comuns, garantem a vida em sociedade, sem a qual não haveria vida social.
É preciso levar em consideração as ideias de consciência coletiva, ou comum e consciência individual. Cada um de nós tem uma consciência própria, que está ligada à nossa personalidade, a qual tem características peculiares e, por meio dela, tomamos nossas decisões e fazemos escolhas no dia a dia.
A sociedade, no entanto, não é o simples somatório de homens, de suas consciências individuais, mas reflexo de uma consciência coletiva ou comum. A consciência individual sofreria a influência da consciência coletiva, a qual seria fruto da combinação das consciências individuais de todas as pessoas ao mesmo tempo.
A consciência coletiva seria responsável pela formação de nossos valores morais, de nossos sentimentos comuns, daquilo que temos como certo ou errado, honroso ou desonroso. Ela exerceria uma pressão externa aos homens, no momento de suas escolhas, em maior ou menor grau. Ressalta Durkheim que a consciência coletiva diz respeito aos valores daquele grupo em que se está inserido, enquanto indivíduo. Ela seria transmitida pela vivência social, de geração em geração, por meio da educação, sendo decisiva para nossa vida social.
Assim, podemos afirmar que a solidariedade social, para Durkheim, se daria pela consciência coletiva, responsável pela coesão entre as pessoas. Contudo, a solidez, o tamanho ou a intensidade dessa consciência coletiva é que mede a ligação entre os indivíduos, variando segundo o modelo de organização social de cada sociedade. Os integrantes de uma comunidade se aproximam uns dos outros ao se diferenciarem do restante da sociedade.

A principal distinção entre os conceitos de comunidade e sociedade diz respeito às dimensões do grupo de indivíduos a que cada um se refere. Apreendemos, então, que a comunidade é definida pelo que iguala seus integrantes. Ela é a organização de sujeitos sob o mesmo conjunto de normas, localidade e governo ou pelo compartilhamento do mesmo legado cultural e histórico.
Deste modo, podemos observar a “comunidade” como um recorte da sociedade. Há várias “comunidades” dentro de uma mesma sociedade, mas não há sociedades dentro de uma só “comunidade”.
As funções comunitárias são muitas. Dentre elas podemos destacar o fato de que ela vai além de conectar ideais, objetivos e interesses. Ultrapassa o círculo de pessoas que partilham amor, dificuldade ou crença por algo em comum.
Comunidade é algo complexo, que requer planejamento e uma constante estratégia de engajamento com seus membros. Suas principais características são a coesão social e as relações recíprocas, partilhando condições básicas de uma vida em comum, fundadas nas relações de parentesco, amizade, interesse, atividade e vizinhança.
Trazemos o pensamento de Robert Redfield[2], que contribuiu para o desenvolvimento dos conceitos de sociedade e comunidade.
Em seu modelo ideal, sem levar em consideração as infinitas interferências e suas variáveis, ele definiu comunidade como sendo um agrupamento distinto de outros agrupamentos humanos. Para ele é “visível onde uma comunidade começa e onde ela acaba”. Ela é pequena, a ponto de seus limites estarem sempre ao alcance da visão daqueles que a integram. É autossuficiente, “de modo que atenda a todas às necessidades e ofereça as atividades necessárias para as pessoas que fazem parte dela. E, por fim, é “independente dos que estão de fora.
Exemplos de comunidades
Um bom exemplo de comunidade é a escola, constituída por gestores, coordenadores, professores, funcionários, estudantes e suas famílias. A importância da escola está em ser uma instituição voltada para a formação do cidadão crítico, protagonista da sua história. Ela tem o dever de contribuir para a superação do preconceito, do abuso, da discriminação e da exclusão, que tanto instigam atitudes violentas contra o “diferente”.
É necessário, para sua evolução, que haja intercâmbio de ideias, de sentimentos, de conhecimentos e de experiências. Neste ambiente, há possibilidades infinitas de crescimento e de apoio mútuo. Não basta a seus integrantes escolherem aqueles que mais se identifiquem consigo, pelos objetivos ou pelas atividades desenvolvidas. Eles também devem desenvolver a alteridade e se respeitar, dentro e fora do grupo.
Apontaremos, no decorrer destes módulos, o conceito de Atitude Adotiva, que o Movimento Nacional de Apoio à Adoção já vivência e deseja expandir. É fundamental que cada um de nós saiba a hora de dar espaço para o outro crescer, de compartilhar conhecimentos, de ser discreto, ético e afetuoso. É preciso reconhecer que todos precisam ser protagonistas de suas vidas e de seus direitos, além de capazes de edificarem uma cultura mais humanizada em seus grupos e comunidades.
Retornando a ideia de comunidade, impulsionada atualmente pelo uso dos meios de comunicação e pela globalização, vislumbram-se também a possibilidade e a emergência de refletir sobre as comunidades virtuais.
Na contemporaneidade, podemos pensar em comunidade, não apenas como um corpo ou um objeto, mas também como resultado de uma construção ideológica, que se baseia na necessidade individual da segurança, do conforto, da familiaridade e do sentimento de pertencimento. Fazemos parte de algo maior que nossa individualidade, com a delimitação do “Nós”, que é familiar, em relação aos “Outros”, que constituem o estranho.
A construção de uma fronteira entre o familiar, que é “de dentro”, no limite com o estranho, que é “de fora”, é a essência que fundamenta uma comunidade. Para tanto, deve existir um monitoramento por parte dos integrantes desta comunidade, para que ideias “estranhas” não entrem em seu meio e ameacem a estrutura construída em torno das ideias familiares.
Nesse ponto, o autor Zygmund Bauman[3] nos esclarece: “pertencer a uma comunidade significa renegar parte de nossa individualidade em nome de uma estrutura montada para satisfazer nossas necessidades de intimidade e da construção de uma ‘identidade’”.
Como um círculo fechado, a comunidade tende a manter o que é estranho do lado de fora.
Esse fenômeno é observável em alguns grupos religiosos sectaristas, que buscam se separar e se diferenciar. Eles perseguem um ideal de “pureza”, que envolve o estabelecimento de comportamentos e a prática de atividades que estão relacionadas diretamente às suas crenças religiosas. Nesta perspectiva, a vontade comum se estabelece na busca de se diferenciar do que é considerado profano por sua crença, enquanto se relaciona diretamente ao que é considerado sagrado.
Assim, são construídas determinações quanto a valores e interpretações de fenômenos, os quais todos os seus integrantes compartilham e valorizam, em alguma medida. Isso se dá em detrimento dos ideais e das características que são atribuídas ao comportamento dos que se encontram do lado de fora, que representam o impuro e o profano.
Transpondo os conceitos para a realidade, podemos considerar que o Brasil é uma sociedade. E apesar dos códigos que são compartilhados entre todos os brasileiros, as relações entre os membros dessa sociedade são, majoritariamente, impessoais. Isso, contudo, não significa dizer que não há um interesse comum no desenvolvimento do país e no bem-estar de todos.
Ainda pensando as relações de comunidade e sociedade, a partir do contexto brasileiro, somos levados a identificar a presença de diversos grupos menores no país. Esses grupos possuem relações mais íntimas dentro de territórios restritos. Exemplos disso são as comunidades tradicionais, como as de quilombolas, ciganos, judeus, ribeirinhos, pescadores, marisqueiros e muitas outras.
Exemplos de comunidades
No país, os povos e as comunidades tradicionais possuem políticas públicas específicas, voltadas para o atendimento das suas necessidades. Em 2007, com a publicação do Decreto 6040, foi criada a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais. O documento define essas comunidades como “grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos por tradição”.
Apesar desta política social, ainda observamos reações preconceituosas por parte da sociedade no trato com tais comunidades. Por isso, é necessário multiplicarmos a prática da atitude adotiva em relação ao diferente.
Grupos
A partir de uma visão mais íntima de comunidade podemos observar que dentro delas há espaços menores, que se denominam grupos sociais. Estes grupos são formas básicas de agrupamento de pessoas, nos quais é necessário haver uma interação mútua e contínua dos participantes, com tradições morais e materiais, segundo a Sociologia.
Ao longo da vida, fazemos parte dos mais diferentes grupos de pessoas, seja por escolha própria, seja por circunstâncias que independem de nossa vontade. Observamos que neles há relações estáveis, em razão de objetivos e interesses comuns, assim como sentimentos de identidade grupal desenvolvidos por meio do contato contínuo Trata-se de fato importante na conformação de nossa educação, de nossos valores e de nossas visões de mundo.
A estabilidade nas relações interpessoais e nos sentimentos partilhados de pertença a uma mesma unidade social são as condições suficientes para que a pessoa faça parte do grupo. Além disso, é importante observar que o grupo existe, mesmo que alguns integrantes não estejam próximos dos demais.
O pertencimento a determinado grupo é fundamental para determinar nosso comportamento em relação aos outros. Embora saibamos que, se por um lado temos o direito de nos identificar ou não com algum grupo, por outro, devemos fugir do preconceito e da discriminação, sob todos os aspectos, em relação aos que estão em outros grupos.
Exemplos de grupos
Temos ciência de que os principais grupos sociais são o familiar, a vizinhança (vicinal), o educativo, o religioso, o profissional, o de lazer e o político. A importância do grupo é facilitar a inclusão social, auxiliando na convivência, na superação de problemas e ofertando alternativas saudáveis para as vivências familiar e comunitária.
Consideramos o grupo um espaço privilegiado por oferecer o desenvolvimento do exercício de tolerância, na medida em que possibilita a livre manifestação de todos os participantes. Também leva à flexibilidade, pois devem sempre prevalecer as decisões de consenso, não as opiniões individuais, cabendo a cada participante ser cooperativo e não competitivo.
A intuição, que não pode ser ignorada, a experiência e as afinidades guiarão cada integrante, para que a participação seja prazerosa para si e para o grupo. Este pode ser também um espaço de manifestação de fé, confiança em si e no outro, em um ser divino e na vida. É importante proporcionar sempre aprendizagem e crescimento, que podem ser traduzidos até pela melhor convivência, resultante de disposição interior associada à uma boa dose de disciplina, no sentido de cumprir os objetivos propostos.
O grupo será o resultado da soma das intenções individuais, que se entrelaçarão formando uma unidade maior, cuja identidade deve abranger e valorizar cada um como parte integrante, importante e indispensável no fortalecimento do todo. Há oportunidade para conviver, dialogar, interagir, desenvolver novas habilidades, divertir-se, auxiliar os que necessitam, mudar costumes que prejudicam o participante, o grupo e, até mesmo, seus relacionamentos familiares, visando restabelecer e/ou manter a saúde e oportunizar melhor qualidade de vida.
Neste contexto, a família adotiva, como grupo e pequena comunidade, constituiu-se de pessoas de inúmeras categorias profissionais, dos mais variados nichos sociais, culturais, étnicos, de gênero e formação acadêmica. Elas formam os Grupos de Apoio à Adoção, os GAAs, firmando um compromisso ético e político para trabalhar as especificidades da parentalidade adotiva e, assim, melhorar a qualidade de vida de gerações do presente e do futuro.
Esta família adotiva por experienciar desafios e lutas cotidianas, transforma a realidade social e cultural, trabalhando no sentido de mudar comportamentos, ensinando conceitos para minimizar ou mesmo acabar, utopicamente falando, com os preconceitos e os mitos sociais, ainda presentes na contemporaneidade.
Exemplos de famílias
Arquivo pessoal
Atitude Adotiva
Retomando a mitologia grega, um verso de Caetano Veloso diz que:
“…Narciso acha feio o que não é espelho…”[4]
Ele nos ajuda a enxergar as diferenças, bem marcantes nessas imagens de famílias contemporâneas. São diferenças que vão muito além do que as lentes captam. Diferenças que estão em quaisquer famílias, grupos e comunidades. Estão em toda a sociedade, mas às vezes envoltas em preconceitos e mitos. Aceitar a si e respeitar o outro, em cada peculiaridade, é um exercício de construção de Atitude Adotiva, fundamental para o humano ser melhor.
Compreendemos que a escola é um dos ambientes mais privilegiados para se trabalhar o combate a preconceitos e mitos, porque ela é espaço de aprendizado e de mudanças de atitudes. A implementação de um projeto formador de Atitude Adotiva é relevante em quaisquer espaços de convivência, mas dentro da escola ele exerce um papel significativo. Sua relevância cresce, se for iniciado na Educação Infantil, pelo fato de as crianças, nesta faixa etária, estarem mais abertas à aprendizagem de sentimentos, à criação de ideias basilares, pois seu cérebro está formando milhões de conexões.
Aprender Atitude Adotiva desenvolve a tolerância, o conhecimento, a afetividade, a ética, os princípios morais, o enfrentamento à violência e à discriminação racial, além do respeito à ecologia, entre outros.
Por isso, faz-se necessário criarmos um movimento ético-político-pedagógico para que a humanidade se torne mais humana e que a violência social contemporânea seja enfrentada para minimizá-la ou até mesmo eliminá-la.
Na maioria das vezes, a escola não foi preparada para enfrentar os comportamentos violentos dos seus estudantes, dos familiares e daqueles provenientes do meio social, fora do espaço escolar.
Nas últimas décadas a escola assumiu papéis que a descaracterizam institucionalmente, tomando certas medidas completamente impróprias, que lhe foram impostas. Um exemplo é a necessidade de buscar a Segurança Pública para intervir em atitudes mais hostis e violentas, em virtude de ameaças à integridade da comunidade escolar.
Nesse contexto, torna-se essencial a criação de programas de formação continuada, para professores e gestores, relacionados à promoção dos direitos humanos e à cultura de paz. É necessário formar Atitudes Adotivas na perspectiva da cultura institucional, considerando que o trabalho desses profissionais estará sempre vinculado aos valores e aos princípios éticos e políticos. Devem ser construídos historicamente, a fim de que os professores possam repensar suas práticas pedagógicas e os gestores possam desenvolver práticas de gestão mais humanizadas.
A Angaad, em nome dos Grupos de Apoio à Adoção, ambiciona contribuir nesta esperança de transformação. Ela “enxerga”, na sociedade, nas comunidades e nos grupos, ainda muitas crianças e muitos adolescentes em situação de abandono, risco e vulnerabilidade social. São situações originadas pelas refrações do antagonismo entre as classes sociais. São resultantes da precarização das condições de trabalho, da ineficácia das políticas públicas e da falta de vontade política, que ainda dificultam a efetivação dos direitos conquistados socialmente e que possibilitam atos de violência desde o ambiente doméstico. É uma constatação que vem exigir de cada um de nós o compromisso individual e também o coletivo para com as ações efetivas de manutenção da dignidade e, enfim, para a sobrevivência humana.
Além das questões referentes às relações interpessoais, para promover uma cultura de paz social, precisamos também nos preocupar com atitudes de cuidado com o meio ambiente, para que possamos ter uma qualidade de vida melhor, inclusive para as gerações futuras.
O sociólogo contemporâneo Ulrich Beck[5] nos aponta que a atual produção social de riqueza em nossa sociedade é sistematicamente acompanhada de riscos tecnológicos, diferente dos riscos habitualmente conhecidos na História.
Antigamente, os riscos eram consequência de carências das tecnologias de higiene, da produção agrícola ou da arquitetura. Hoje, eles decorrem da superprodução industrial e se intensificam, à medida em que se tornam globais, graças à alta tecnologia empregada. Seus impactos não se restringem a um determinado espaço e tempo, mas podem atingir o planeta e as várias gerações futuras. Cedo ou tarde os riscos produzidos impactarão na saúde, na propriedade e nos lucros de seus agressores, bem como na sua legitimação.
No entanto, quando há riscos previsíveis de uma tecnologia, a velha lógica da sociedade ainda o direciona para as classes mais pobres, vulneráveis e com menor poder político, que são as vítimas preferenciais.
Torna-se urgente uma nova postura na ciência moral, para orientarmos nossas ações, segundo Hans Jonas[6]. Ele considera que é até por uma questão de sobrevivência humana, partindo da Ética, para instruir a reavaliar cada vez mais as ações.
Diante de tais pressupostos, concluímos que vivemos em sociedade, comunidades e grupos, mas que se faz premente nos humanizarmos e nos sensibilizarmos, diante de nós mesmos, do outro e do meio ambiente.
A humanização inicialmente envolve sentimento de igualdade, respeito e dignidade na nossa existência.
Precisamos enxergar o outro ser humano, com suas características peculiares, estado, religião, moradia, condições morais ou econômicas.
Precisamos observar com empatia este mundo que nos acolhe, para que possamos ser felizes.
Precisamos construir o que nos compete como humanidade, deixando para as gerações futuras o desejo de si adotarem, de serem adotados e de adotarem o outro, com mais compaixão e respeito.
Arquivo pessoal
Esperamos poder ter contribuído para o início da reflexão sobre a Atitude Adotiva. Os próximos módulos vão refletir sobre outros aspectos deste conceito. Desejamos que ela se transforme em ferramenta de trabalho, de vida e que você possa aplicar nos seus mais diversos espaços de convivência.
Muito obrigada por adotar essa ideia!
Abraços!
MARIA SUELI LIMA DOS SANTOS


